Juntar as energias para reconstruir

Date 16-12-2020

por Ernesto Olivero

Há poucos dias recebemos uma carta do nosso fundador, Ernesto Olivero, que quis compartilhar com a Fraternidade e os amigos do SERMIG na Itália, no Brasil, na Jordânia e onde houver alguém que se inspire na espiritualidade desta Fraternidade qual é o espírito com o qual enfrentamos este tempo difícil e com o qual queremos compartilhar o futuro.
Um bom estímulo para fortalecer as nossas motivações em continuar mantendo aberta a porta do Arsenal e das nossas comunidades.

Carta à Fraternidade e aos amigos
Dezembro de 2020

 

Caros amigos,
 

Estamos todos vivendo um momento muito complicado. Apesar de tudo, me mantenho apegado à esperança e o meu pensamento afetuoso vai a todos os nossos amigos. Nunca como hoje imaginei ter à minha volta pessoas assim tão generosas, capazes de se fazer presentes dia e noite, capazes de aceitar tarefas que mudam de um instante para o outro porque o imprevisto nos permite alcançar novas caridades. Queremos santificar o imprevisto. Se no Sermig não tivesse existido o imprevisto, se não o tivéssemos visto e acolhido, o Sermig seria pouca coisa, certamente não existiria mais há muito tempo. O imprevisto nos revigorou, o imprevisto nos fez conhecer situações impossíveis que, graças a Deus, se tornaram possíveis. Por isso a palavra impossível não existe mais no nosso vocabulário.
 

Entre os amigos com quem divido esse espírito não escuto queixas. Vejo olhos cansados, rostos preocupados, se posso dizer, como o meu, mas nunca queixas, nunca desespero, nunca um murmúrio, nunca. Agradeço a Deus por cada amigo, por cada voluntário que me fez ver aquilo que jamais imaginei ver.
 

Neste tempo compreendi, em profundidade, que a chave é rezar mais, muito mais, tenho amadurecido uma oração contínua, sem pressa, e tenho experimentado que a espiritualidade da Presença pode ser vivida. E dá frutos, entra dentro de nós, nos muda, nos torna uma coisa só com Deus. Gostaria que todos nós pudéssemos amadurecer essa oração contínua. Todos podemos experimentar a riqueza da oração que se torna espiritualidade da Presença. Creio que todos nós podemos experimentar que a espiritualidade da Presença é o dom mais precioso que Deus nos concedeu. E nos concedeu sem que nós, no início, o compreendêssemos, mas à medida em que avançamos o estamos compreendendo cada vez mais. Neste tempo difícil, inimaginável, a espiritualidade da Presença pode se tornar a chave para não nos abatermos, pois este tempo passará, mas a oração permanecerá e nos encontrará mais fortes, cada um de nós mais forte.
 

Com a oração no coração, pensei em outros momentos difíceis que vivemos. A mente se voltou para os anos 1970, para o verdadeiro medo que o terrorismo* provocava. Em uma cidade como Turim, a cada dia alguém era atacado. O terrorismo dava medo, no começo de cada dia cada pessoa se perguntava se chegaria viva até a noite, se os seus entes queridos estariam vivos. Eu me lembro daquele momento. Mas o terrorismo foi uma das chaves da nossa história: eles pediram para dialogar conosco, eles nos pediram para ajudá-los a sair daquele buraco negro. E muitos deles hoje estão conosco, mudados, radiantes! Quanta dor, quantas famílias despedaçadas, quanto sangue! Vivíamos um profundo clima de incerteza, nos perguntávamos quando tudo iria terminar. Naqueles anos complicados senti que não podíamos nos permitir renunciar à esperança. Inventamos os encontros públicos, geralmente nas praças, pedindo que as pessoas viessem, que rompessem o circuito do medo, que gritassem com seu silêncio. Íamos para as praças com o nosso silêncio, com a nossa vontade de rezar, e pedíamos às pessoas para rezarem conosco, não para apontar o dedo.
 

Nós os chamávamos de “Tardes de esperança” e não era uma proposta para consolar. Começaram a dar esperança a tantas pessoas, a tantos jovens, a tantos de nós. Eu já via o terrorismo acabado, sentia que era preciso juntar as melhores energias para reconstruir o depois, para sanar algumas feridas. A profecia de um arsenal de guerra transformado em Arsenal da Paz, no fundo, foi um dos frutos daquele momento.
 

Hoje vivemos uma situação diferente, é equivocado fazer comparações. Mas, em alguns aspectos, vivemos ainda um clima de medo, de raiva, de incerteza. Somos atravessados por tanta vulnerabilidade, pela dor por aqueles que se foram, pela preocupação que nos invade quando alguma pessoa querida adoece. Tudo está amplificado. Mesmo assim, sinto que podemos começar a pensar no mundo que virá. Podemos começar a pensar nele com olhos diferentes. E esse sofrimento nos fará vê-lo com os olhos de Deus. Pois esse mundo está realmente nas nossas mãos.
          

Caros amigos, que ninguém se sinta excluído. Que cada um recorra aos próprios ideais, à própria criatividade, aos melhores recursos internos e se pergunte concretamente o que está disposto a fazer. Redescobrir, por exemplo, a nossa responsabilidade pública, relançar o nosso compromisso com o bem comum. Em nível mundial, refletir um pouco mais sobre as pessoas às quais atribuímos responsabilidade, sobre as escolhas nos temas da ecologia, da imigração, do desenvolvimento, da paz. Ter a coragem de relançar a luta contra as injustiças, contra a fome, contra as desigualdades. Pedir uma intervenção séria no tema das mudanças climáticas. O mundo nos pertence, não temos um outro. O curto-circuito da covid-19 pode ser uma lição que bate à nossa porta.
 

Quem ama realmente encontrará um caminho, feito de transparência, de gratuidade, de disponibilidade, de paixão, de fraternidade. Cinco palavras que podemos tornar nossas:
 

Transparência em cada espaço de nossa vida pessoal e comunitária, que significa honestidade, nunca mais roubalheiras, autenticidade, integridade da nossa pessoa.
 

Gratuidade, um espaço, um tempo e algo de nós mesmos para compartilhar, pois recebemos tudo de Deus e tudo pode ser dividido.
 

Disponibilidade, pois as pessoas precisam encontrar um porto seguro, pessoas prontas a escutar, a não olhar o relógio, a deixar-se questionar pelos “imprevistos” que podem se tornar compromissos, compromissos com nós mesmos, compromissos com a história, compromissos com Deus.
 

Paixão, a faísca que não deixará que nos tornemos mornos e indiferentes, mas prontos a mergulhar de cabeça realmente, pagando pessoalmente, se necessário, com um fogo sempre aceso dentro de nós, alimentado por grandes ideais.
 

Finalmente, a fraternidade, o modelo de vida dos primeiros cristãos, um exemplo atualíssimo em um tempo em que nos redescobrimos todos interconectados. Um mundo fraterno depende só de nós. De nós, não dos outros.
 

Se começarmos a viver tudo isso, ao longo do tempo descobriremos sempre mais a presença de Deus: a síntese de uma vida inteira. O Natal nos mostra isso com uma tonalidade particular. Deus está conosco, mas escolhe nascer na pobreza, é indefeso, frágil, falta-lhe tudo, precisa de nós. Nós podemos amá-lo e cuidar dele, desejando, com todas as nossas forças, mudar de vida agora, imediatamente, para mostrar que é possível nos querermos bem, é possível nos perdoarmos, é possível encontrar o bom e o belo no outro que irrompe na minha existência, pois cada coisa que acontece é uma riqueza possível. Se fôssemos sábios, competiríamos para nascer de novo e finalmente viver o nosso autêntico Natal.
 

Com Maria, a minha Maria, lhes abençoo e vocês nos abençoem, no Céu e na Terra.
 

Ernesto e Maria Olivero
 

Turim, 12 de dezembro de 2020.
 

* Com a expressão “terrorismo” Ernesto se refere aos anos que na Itália foram chamados de “anos de chumbo” (Anni di piombo), um período de grande turbulência sócio-política, que começou ainda no final dos anos 1960 e que durou praticamente até o fim da década de 1980. Este período – que em grande parte do mundo era o da “guerra fria” – foi marcado por uma onda de terrorismo interno, pela mão de “extremismos opostos”.

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