
Carta à Fraternidade e aos amigos
Abril de 2025
Caros amigos,
Escrevo a vocês esta carta a partir da página da nossa Regra “Fraternidade na Igreja”, com o desejo que possa ser de ajuda para cada um de nós.
Se você quer viver nesta Fraternidade
os dons do seu batismo,
escolha estar na Igreja
não como em uma estrutura,
mas como em uma Presença à qual converter-se,
a presença de Jesus,
aderindo a Ele com amor,
movendo-se como um filho e um irmão
nessa Sua presença.
É uma Presença
às vezes difícil de reconhecer,
trabalhosa de viver,
no limite do impossível,
mas é real.
Jesus a quis assim
para nos abrir a estrada do Reino
e para anunciar a todos a boa nova
de “céus novos e terra nova”.
Diante das dúvidas que nos assaltam,
nos colocamos de joelhos e,
rezando incessantemente,
pedimos ao Espírito Santo
que nos ensine a discernir o bem do mal,
para fazermos a vontade de Deus
sem deixar de lado a fidelidade.
Ser Fraternidade na Igreja significa que não somos dispersos, isolados, mas pertencemos a um povo, no qual fomos gerados.
Somos parte daquele povo que Deus quis para levar o seu amor e a sua benção, a cada homem até os confins do mundo. Não um povo privilegiado, mas um povo chamado a servir toda a gente no mundo, dentro da história.
Um povo que tem o seu centro em Jesus. Que cresce caminhando atrás de seu Mestre e que recebe Dele a sua credibilidade.
Quando era criança pensava que a Igreja fosse feita de santos – e de santos na Igreja realmente encontrei tantos – mas crescendo entendi que a Igreja é feita de pessoas frágeis, em caminho; pessoas que erram e que às vezes também causam escândalos.
Se perdemos de vista o coração e esquecemos que a Igreja nasce de Jesus, Filho de Deus, morto e ressuscitado, corremos o risco de nos perder olhando a fragilidade daqueles que fazem parte dela, e entre estes também estamos nós.
Se olharmos para as dificuldades, para as incompreensões, para os escândalos, podemos encontrar mil ótimas razões para polemizar, mas nesta Igreja tão frágil e pecadora tem a pérola mais preciosa de todas: Jesus. É Ele com a sua presença que a torna santa porque a converte, a purifica, a perdoa, a levanta continuamente.
Caros amigos,
Nascemos como um grupo de jovens que desejava fazer alguma coisa para contribuir a erradicar a fome no mundo, depois o encontro com testemunhos verdadeiros nos ajudou a colocar raízes na Palavra de Deus, a nos sentir cada vez mais parte de um povo que caminha junto.
Nos primeiros anos, não foram poucos os episódios nos quais pessoas da Igreja com suas palavras e atitudes nos fizeram sofrer. Eu era um leigo que se permitia de fazer coisas importantes, era um sem cultura e sem preparação que andava por aí para levar o próprio testemunho e era visto sempre como suspeito. A tentação de bater a porta e ir embora às vezes aconteceu, mas um pouco pela graça, um pouco pela intuição, nós ficamos. Entendemos que as pessoas da igreja que nos fizeram sofrer não eram a Igreja. A Igreja era Jesus e nós queríamos seguir Ele, inclusive nos momentos mais duros.
Nos anos 1970 o encontro com o padre Michele Pellegrino, arcebispo de Turim, nos ajudou a fincar as raízes da nossa Fraternidade na Igreja, com ainda mais convicção. Ainda hoje a cada que vez que penso no padre Michele, como o chamava com afeto e respeito, nasce em mim o agradecimento. Foi para nós um verdadeiro pai e reconheceu em nós aquilo que ainda não víamos.
Naqueles anos com tantos jovens compartilhávamos as críticas que eram dirigidas à Igreja: rica demais, muito segura e categórica, muito separada das pessoas, distante demais da realidade dos pobres. Mas ao mesmo tempo sofríamos como acontece quando falam de alguém que amamos: “Jesus disse aos Doze: ‘Vós também quereis ir embora?’ Simão Pedro respondeu: ‘A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.’” (Jo 6, 67-68).
Não queríamos ser “anti” ou “contra”, não queríamos condenar a Igreja, ao contrário queríamos contribuir para deixá-la melhor seguindo o exemplo de tantos cristãos que mesmo em sua fragilidade e pequenez, no silêncio e na coerência de vida, contribuíram para mudá-la de dentro: pensávamos em Francisco de Assis, Caterina de Sena, João Bosco, Primo Mazzolari, Lorenzo Milani, Madre Teresa de Calcutá... pensávamos também a tantos pais e mães de família, trabalhadores, sacerdotes, consagrados, missionários, doentes, idosos... que são Evangelho vivo lá onde vivem, às vezes também a custo da vida. Me dizia e me digo que primeiro de tudo é esta a Igreja: humildes semeadores graças aos quais o reino de Deus avança silenciosamente como nas parábolas do semeador e do grão de mostarda (Mt 4, 26-32).
Quando em 1976 fui até Paulo VI para levar os pedidos de nós jovens por uma Igreja mais coerente com a mensagem evangélica, ele me escutou, me abraçou, me abençoou e acrescentou: “Tem razão, faça o senhor aquilo que me pediu. Espero de Turim, terra de santos, por uma revolução de amor”. Aquelas palavras me fizeram compreender o sentido do nosso pertencimento à Igreja e a responsabilidade que este pertencimento envolve.
Padre Michele Do, um homem de Deus, nos anos sucessivos nos ajudou a entender que a Igreja não era uma estrutura a ser atualizada, mas uma Presença, aquela de Jesus, à qual converter-se.
No tempo a oração assídua, a leitura da Palavra, a partilha e o serviço, contribuíram a transformar o nosso pequeno grupo de origem em Fraternidade na Igreja. Alguns meninos e meninas responderam ao chamado de Deus e o seguiram vivendo o Evangelho na Fraternidade da Esperança. Todos, casais, solteiros, consagrados, sacerdotes, chamados a se tornarem cada vez mais homens e mulheres de Deus. Todos com a mesma dignidade e responsabilidade, todos chamados a amar e servir. Todos a serviço do Reino que se constrói na Igreja.
Assim cada um de nós – se se tornar cristãos 24h por 24h – pode ajudar a Igreja a ser como Jesus a pensou: casa para todos. Casa onde ninguém se sente excluído ou estrangeiro. Casa capaz de ajudar a reencontrar sentido e direção e de revelar o rosto misericordioso de Deus para todos os homens.
Com a minha Maria* vos abençoamos e vocês nos abençoem.
Ernesto e Maria
Turim, 06 de abril de 2025
*Maria Cerrato, esposa de Ernesto e cofundadora do SERMIG, que faleceu em 4 de maio de 2019.




