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Abril

 

Carta à Fraternidade e aos amigos

Abril de 2026

Caros amigos,

Neste mês nos acompanha a página “Relendo a nossa história”, da Regra do SIM:

Estou no Brasil com Dom Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana (MG), que representa um encontro guiado por Deus; é um homem importante na minha vida e, com imenso encantamento, penso que também sou importante na vida dele. O encontro dessa vez tem um objetivo. Quero pedir a ele para escrever a Regra do SERMIG, que me pedem há muito tempo e de muitas partes. Ele me ouve com atenção e prontamente me responde: “Não, a Regra é escrita pelo fundador! O Senhor deu a você o dom desse carisma. Você deve escrevê-la”.

Estou emocionado, não sei o que serei capaz de fazer, mas aceito pensando no bem que recebi cada vez que escutei os conselhos dele.

Procuro a chave do nosso caminho, das nossas atividades, da nossa fidelidade desses anos. Não é difícil. A chave é Jesus, o encontro fundamental de minha vida, o sentido de tudo, sempre. Desde o momento do primeiro encontro, a sua Palavra se tornou uma palavra para mim, uma palavra difícil, mas não impossível de viver. Quando Ele diz: “Se não voltarem a ser crianças...” é para mim e acredito nisso.

Quando nos ensina a rezar: “Pai Nosso”, creio verdadeiramente que todos nós somos filhos de Deus e irmãos entre nós.

Quando recomenda: “Rezem incessantemente”, esse incessantemente se tornou parte da minha respiração.

Ou se diz: “Amai os inimigos”, não considero essas palavras uma simples exortação, mas uma ordem para mim.

Compreendi que me apaixonei por Jesus. Não construí sobre a areia, construí com Ele. Essa tem sido a minha vida, com altos e baixos, como a vida de todos, mas o meu amor a Jesus permaneceu constante. Tudo aquilo que veio ao meu encontro, eu não enfrentei de acordo com a minha mentalidade, mas de acordo com Jesus, que eu havia encontrado.

Com essa chave comecei a oração, a reflexão, e deixei a mente e o coração livres para escrever esta “Regra não regra”.

Regra que nasce de uma história. Nascemos em 14 de maio de 1964, uma época de violenta contestação.

Uma época em que, para ser verdadeiramente cristão, era preciso reivindicar, condenar, escolher um lado de acordo com uma ideologia. Mas nós queríamos ficar “colados em Jesus”, o Filho de Deus que tem palavras de vida eterna, Aquele que diz: “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”, Aquele que assegura: “As forças do mal não prevalecerão”.

Permanecemos unidos a Ele para lutar contra a fome, contra as injustiças que causam a miséria; e, sobretudo, para lutar contra o pecado em todas as suas expressões de orgulho e de egoísmo, de ódio e de violência.

Começou assim um caminho que colocou à prova nós mesmos, o nosso tempo, a nossa inteligência, os nossos bens materiais e espirituais.

Sofrimentos e provas indizíveis nos fizeram descobrir o silêncio, a força de estarmos desarmados.

Procuramos entender o que significa amar os inimigos e percebemos que, às vezes, é ainda mais difícil amar aqueles que deveriam ser amigos. Naquele momento, sentimos toda a nossa fragilidade.

Colocamos o nosso “ser jovens” em primeiro lugar no projeto de vida que estava ganhando corpo, para nos formarmos e nos transformarmos em comunidade. Jesus se tornou o nosso Tudo, o nosso Jesus.

Nasceu assim o desejo de estar com os jovens, por eles. E com eles pelos mais pobres, não apenas com os que estão longe, mas com os pobres do nosso país: italianos e estrangeiros, presos e vítimas do tráfico, doentes e idosos, refugiados políticos e sem-teto, mães solteiras com os seus filhos, crianças e jovens com deficiência...

Esses amigos nos educaram a compreender que permanecendo unidos a Jesus, como o ramo à videira, nada é impossível.

A pobreza de meios e de recursos na qual nos encontrávamos na época da chegada do Arsenal, no dia 2 de agosto de 1983, em Turim, nos fez descobrir que a desproporção é o terreno da Providência.

E em tudo experimentamos o seu sustento. Com o tempo, começamos a pensar que devíamos dar a vida com um sim total e sem condições. Com a determinação de um maratonista, a confiança de um sonhador, a simplicidade sorridente de uma criança.

Assim, nos descobrimos uma fraternidade no seio da Igreja – a Fraternidade da Esperança – sem abandonar o nome das nossas origens, SERMIG, agora repleto de sentido: Servizio Missionario Giovani (Serviço Missionário Jovens).

Em todos esses anos, Maria nos envolveu com sua ternura.

Foi Ela que nos levou até o seu filho Jesus, Senhor da nossa vida, nos revelando a paternidade de Deus e a potência do Espírito Santo.

É Maria que agora me guia a traçar as linhas de uma Regra de vida que possa dar solidez e futuro a esta aventura, uma Regra que convide a pronunciar com alegria, da mesma forma que Ela: “Sim, Senhor”. É a Ela que dedico esta aventura, para que Ela a proteja e a ajude a ser sempre e para sempre somente obra de Deus.

São Paulo, 6 de agosto de 1996

Queridos amigos,

este mês escolhi reler com vocês a introdução da Regra: me faz bem lembrar como ela nasceu há trinta anos, em São Paulo. Fui até lá propositalmente para pedir a Dom Luciano que a escrevesse para nós e ele, pela primeira e última vez em todos os anos da nossa amizade, me disse não. Eu não tinha a menor ideia de por onde começar ou do que sairia dali, mas tinha a tranquilidade daquele mandato: “a regra quem escreve é o fundador”.

  Comecei, palavra por palavra, página por página. Mas eu teria parado logo na primeira frase: “a chave é Jesus, o encontro fundamental da minha vida, o sentido de tudo” e no primeiro capítulo: “O Evangelho, nossa regra”. Para mim, que sou sintético, tudo está ali: Jesus e o Evangelho. O que mais se poderia acrescentar? Ressoava em mim a Palavra de Jesus: “Seja o vosso falar sim, sim; não, não. O que passa disso vem do maligno”.

  Mas as palavras fluíam, as páginas brotavam da vida vivida. A cada página que escrevia, eu me perguntava se era necessária, se não era uma tentação acrescentar coisas. Conversava com os amigos da Fraternidade, com meus mestres: corrigia, reescrevia, mas tudo acontecia na alegria e eu também era testemunha de algo que não vinha de mim. Não é um orgulho partilhar com vocês essa experiência, pois cada palavra foi um dom do Espírito Santo.

  Dom Luciano amou muito a nossa “regra não regra”. Ele a examinou versão por versão e, quando ficou pronta, a ilustrou com a alegria de deixar o seu rastro — simples como ele, simples como é simples a “regra do Sim”. Agora que a Regra foi traduzida e publicada no Brasil, alegro-me com ele e imagino ouvir sua voz lendo-a em sua língua.

  Hoje, quero mais uma vez confiá-la a ele no Céu, para que aqueça o coração de tantos buscadores de esperança, de tantos jovens que procuram o sentido da vida. Mas confio a ele, sobretudo, a nossa fraternidade: quem dela faz parte, quem está pensando em entrar, quem nos acompanha de perto e nos ajuda, todo o povo do SERMIG — para que possamos crescer na fidelidade ao dom recebido e na responsabilidade de traduzi-lo em fatos concretos. E para que, com a alegria do nosso “Sim”, possamos dar “solidez e futuro a esta aventura”.

  Maria* e eu, Dom Luciano e todo o Arsenal no Céu continuamos ao lado de vocês com todo o amor que trocamos e que nos une para sempre.

  Nós os abençoamos e vocês nos abençoem,

                                                                                                                                                       Ernesto e Maria

Turim, 26 de abril de 2026

 


*Maria Cerrato, esposa de Ernesto e cofundadora do SERMIG, que faleceu em 4 de maio de 2019.

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