
Carta à Fraternidade e aos amigos
Fevereiro de 2026
Caros amigos,
nesta Quaresma nos acompanha a página “Amados, amamos” da nossa Regra:
A primeira comunidade cristã,
benquista por todos,
tinha Jesus no centro da própria vida.
Quando o encontro com Jesus
se torna um encontro “face a face”,
os nossos olhos veem com os Seus olhos,
o Seu coração se torna o nosso
e assim também o Seu amor.
Deus é amor
e nós podemos ser Seu reflexo
porque somos habitados por Ele,
porque O escolhemos com todo o coração,
com todas as forças, especialmente
quando nos sentimos pobres, pecadores,
incompreendidos ou descartados,
quando ninguém
se lembra de nós.
Jesus nos amou primeiro,
nos amou até a cruz,
mistério de amor que vence o mal.
Amados, amamos.
Ajoelhamo-nos diante do homem solitário,
pobre, sofredor, oprimido,
para amá-lo com o coração paterno
e materno de Deus,
para acompanhá-lo, se ele o quiser,
em direção ao encontro com o Seu amor.
Caros amigos, o maior dom que o Senhor me deu foi ter aprendido cedo a dialogar com Ele face a face sobre mim e sobre tudo o que eu vivia, a ter com Ele plena confiança. Eu gostava de fazer coisas para os outros e me empenhava com todas as minhas forças em tudo o que fazia, mas era tímido, tinha muitos limites. Mesmo assim, nunca desisti, porque me sentia amado e sustentado pelo Senhor. Eu me sentia profundamente amado, do jeito que eu era. E eu O amava com simplicidade, com naturalidade. Devolvia a Ele tudo aquilo de que era capaz e até mais, para fazê-lo feliz. Cresci assim, sempre vivi assim. Com toda a minha limitação, queria fazer Deus feliz.
Enquanto escrevia a Regra, um dia refleti sobre todas essas coisas e me perguntei: mas o que está no centro do meu acreditar em Jesus? Qual é a palavra-chave da minha experiência de fé que posso compartilhar com a Fraternidade? Creio que foi o Espírito Santo quem me sugeriu a síntese: Amados, amamos. Lembro da alegria dos amigos que a ouviram pela primeira vez e me confirmaram que era uma bela síntese e que era o coração da espiritualidade da Presença que desejamos viver.
Nada acontece em nosso coração se não acreditamos que Deus nos ama, nos ama não como modo de dizer, mas como filhos únicos e preciosos. Se acreditamos que Ele nos ama com tanta paixão, não podemos deixar de responder ao seu amor e nos colocar em jogo, amando-O e nos amando entre nós. Estamos juntos porque acreditamos nisso e queremos tentar viver assim, mesmo com todos os nossos limites, nossas quedas, nossas dificuldades. Estamos juntos para que quem entre nós encontra mais dificuldades se sinta acompanhado em sua busca, se sinta tomado pela mão até que o coração se abra.
Lembremo-nos de que fomos feitos para amar, para responder ao amor que Deus semeou em nós. Jesus nos revela isso e nos confirma: “‘Mestre, qual é o maior mandamento na Lei?’ Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua mente e com todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, segundo lhe é semelhante: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”. (Mt 22, 36-39)
O que significa amar a Deus? Como responder ao seu amor amando o Pai, Jesus, o Espírito Santo? “Deus é amor e nós podemos ser Seu reflexo porque somos habitados por Ele”. Hoje acredito profundamente que ser reflexo do amor de Deus entre as pessoas do nosso tempo é a maior missão confiada a nós cristãos. Antes de tudo, os pobres, que carecem do essencial; mas também as pessoas com quem entramos em contato, dos mais jovens aos idosos, quem crê em Deus e quem não crê: todos precisam se sentir acolhidos, acompanhados, amados. Mas também entre nós, que vivemos juntos e compartilhamos a responsabilidade da Fraternidade ou prestamos juntos os serviços, isso deve se tornar prioridade. Perguntemo-nos sempre: como posso comunicar o reflexo do amor que há em mim à pessoa que está ao meu lado?
Enquanto escrevia esta carta, senti um amor profundo bater à minha porta, senti a dor de uma querida amiga por sua doença, uma dor que também me atravessou, e compreendi que o amor é assim: é intenso, não têm meias medidas, está disposto a tudo… Entre nós, não podemos senão amar assim, dispostos a perder tudo para ganhar uma pessoa. A nós, Fraternidade, digo: estamos dispostos a amar-nos uns aos outros assim? A perder algo de nós para não perder o outro?
Com Jesus, que nos amou primeiro, até a cruz, podemos participar do mistério de amor que vence o mal. Os tempos só Deus os conhece, mas certamente podemos tornar mais fraterna a vida da nossa Fraternidade e de quem nos frequenta. Recomendo isso a vocês com todo o coração e com todas as poucas forças que ainda tenho.
Com a minha Maria*, nós os abençoamos e pedimos também a vocês que nos abençoem.
Ernesto e Maria
Turim, 22 de fevereiro de 2026
*Maria Cerrato, esposa de Ernesto e cofundadora do SERMIG, que faleceu em 4 de maio de 2019.




