
Carta à Fraternidade e aos amigos
Janeiro de 2026
Caros amigos,
gostaria de dedicar esta carta de modo especial às nossas Fraternidades que vivem nos Arsenais nascidos e crescidos, na Itália ou no exterior, segundo o modelo do Arsenal da Paz de Turim, a nossa primeira casa, fundada em 2 de agosto de 1983. Escrevo a vocês a partir da página intitulada “Arsenais” da nossa Regra espiritual:
“Transformarão as suas espadas em arados…
e não se exercitarão mais na arte da guerra” (Is 2,4).
A Providência nos permitiu transformar
um Arsenal de guerra em uma casa a serviço da paz!
Em qualquer parte do mundo aonde o Senhor nos envia,
as nossas casas se assemelham à primeira fundada em Turim.
São lugares reestruturados com o trabalho de muitos,
acolhedores, mas sóbrios,
cuidados e adornados com obras de arte
para oferecer a todos, até aos mais simples,
a possibilidade de entrar em contato com o que é belo.
São “mosteiros” na cidade,
lugares de fraternidade e de busca de Deus,
locais para restaurar as próprias forças
como os antigos mosteiros.
São os lares das irmãs e dos irmãos
que escolheram a vida em comum;
lugares onde eles vivem a presença do seu Senhor
vinte e quatro horas por dia,
disponíveis para acolher qualquer um,
em qualquer hora do dia e da noite.
Ali encontram lugar as caridades mais urgentes e necessárias,
mas, sobretudo, são abertos ao encontro
com quem tiver o desejo de procurar o sentido da sua vida.
São, de modo particular, casas para os jovens,
os homens e as mulheres de amanhã,
que mais do que todos carregam as feridas
das pobrezas do nosso tempo.
Teremos também refúgios de silêncio
em lugares ermos,
ligados aos Arsenais nas cidades,
abertos a todos que quiserem viver
momentos de oração em solidão.
Caros amigos, há 30 anos dissemos sim ao convite do Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, e do grande amigo Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, para levar a São Paulo a nossa experiência de acolhida amadurecida em Turim. Aceitamos assumir a responsabilidade pelo grande complexo da antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, uma grande casa que historicamente acolheu de milhares de pessoas que, vindas de várias partes do mundo, migravam em busca de uma vida melhor no Brasil.
Há 30 anos, essa casa é conhecida como Arsenal da Esperança, refúgio para tantos homens sem moradia e em busca de possibilidades de mudança de vida. Como sinto falta daqueles muros que me acolheram centenas de vezes e daquelas ruazinhas com árvores centenárias onde caminhei apertando mãos e trocando sorrisos com os nossos 1.200 hóspedes! Depois de 30 anos, quero agradecer ao Senhor por esse chamado incrível que mudou a nossa vida. Agradeço por todos aqueles que disseram sim a essa chamada missionária para se unir aos amigos brasileiros e tornar-se um só com eles.
Mas este ano também marca os 20 anos do Arsenal do Encontro, na Jordânia, em Madaba. Nunca teríamos imaginado, mas também ali respondemos sim a um convite: o do Patriarca Latino de Jerusalém e do Bispo de Amã, para sermos uma presença de cuidado para crianças e jovens com deficiência, os mais frágeis daquela terra. Sempre nos acompanhou a certeza de que a alegria daquelas crianças e de suas famílias era o sinal da presença de Deus que nos encorajava a permanecer. No meu coração há apenas gratidão por cada um que fez de si um dom que, unido ao dos outros, deu continuidade à obra de Deus até hoje. Um dom que, se o Senhor quiser, continuará.
Este ano são também 10 anos de vida do Arsenal da Harmonia, que não fica longe de Turim, mas tem a estrutura de um Arsenal, e é bonito recordar que também ali há amigos que se dedicam todos os dias. E desejo lembrar todas as outras casas onde realizamos serviços importantes para quem as frequenta.
Caros amigos, não quero celebrar o passado, mas desejo agradecer a Deus porque Ele se serviu de nós poucos, de nós pequenos, para fazer mais do que teríamos imaginado. Podemos realmente dizer que, com o nosso pouco, Ele fez muito. Ele nos permitiu transformar lugares de morte, lugares de dor, lugares abandonados em casas acolhedoras, abertas a todos, para deixar às pessoas um sinal que fala por si só do projeto de paz que está em Seu coração.
Até agora acreditamos nisso! Estamos dispostos a continuar acreditando?
Com a minha Maria*, abençoamos vocês e vocês também nos abençoem!
Ernesto e Maria
Turim, 25 de Janeiro de 2026
*Maria Cerrato, esposa de Ernesto e cofundadora do SERMIG, que faleceu em 4 de maio de 2019.




