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Março

Carta à Fraternidade e aos amigos

Março de 2026

 

 

Caros amigos,

neste mês somos acompanhados pela página “O Sim que dá vida” da nossa Regra:

O nosso sim, o nosso dar a vida,

nos torna totalmente livres

para amar a todos

com o coração indiviso, como Jesus.

Na vida de fraternidade,

não nos tornamos nunca dependentes

do humor dos outros:

nos tornamos dependentes do amor de Deus.

Qualquer dependência

nos limita e nos entristece,

a liberdade do coração alegra a nossa vida

e nos abre ao serviço gratuito.

Dependemos unicamente do amor de Deus

porque com Ele aprendemos a amar

com gratuidade,

sem esperar nada em troca

senão a alegria de fazer os outros felizes.

As tristezas e os medos dos quais o mundo está cheio

afligem também muitas pessoas

que escolheram dar a vida.

Não basta dizermos sim a Deus

de uma vez por todas

e depois nos fecharmos no nosso sim.

É necessário mirar o amor

que é novo a cada dia.

O sim é sim quando dá vida, quando cria vida ao seu redor

exatamente como uma nova e contínua criação.

O sim é verdadeiro quando se supera,

quando nos ajuda a dar sentido à vida sempre.

O sim nos faz questionar a nós mesmos todos os dias,

para que o orgulho não nos torne impenetráveis,

para que a arrogância e a soberba

não nos dominem.

Desejo que cada um procure saber

se o seu sim está trazendo vida ou medo,

vida ou morte.

Se pedirmos ao Senhor o dom de entender,

até os mais duros de nós

terão a graça de procurar e de entender.

Se existe boa vontade, ressurgimos, mudamos,

porque Jesus veio nos trazer a certeza

de que podemos mudar

a qualquer momento.

O sim é sim se atrai outros sim,

o sim é sim quando se torna bem

para os que se aproximam.

Os nossos sim são sim se dão esperança e alegria,

mas devemos ter a serenidade,

a disciplina e a ironia

para entender para que o nosso sim está servindo.

O sim é sim quando sabe dizer como Maria: “Eis-me aqui”.

Sempre, em cada momento,

este sim nos une

ao amor de Deus e ao serviço ao próximo.

Caros amigos,

gostaria que a nossa Fraternidade se tornasse cada vez mais santa — não perfeita, mas santa. Gostaria que cada um de nós se exercitasse em silenciar a prepotência do próprio egoísmo. Gostaria que a consciência da Presença fosse tão forte em todos nós a ponto de nos fazer amar uns aos outros como somos e amar a Fraternidade também com todos os seus defeitos, que são os nossos defeitos. Gostaria que amássemos sem nos cansar, melhor ainda, que fôssemos sempre os primeiros a amar sem julgar, os primeiros a nos fazer pequenos, capazes de escutar os outros profundamente e acolher quem nos pede ajuda.

   Esses “gostaria” nascem do desejo de viver cada vez mais essa página da Regra. Ao relê-la, recordei que a lemos quando Maria Teresa morreu, no dia 23 de março de 2006, em Amã, na Jordânia. Vinte anos atrás. Hoje quero dedicar esta carta a ela, para não esquecer que o sim dela foi um sim que deu vida. Ela já tinha uma certa idade quando chegou entre nós como voluntária e, conhecendo sua confiabilidade, pedimos que cuidasse da acolhida feminina.

   Quando se aposentou, propus a ela a Fraternidade. Lembro que me disse: “Na minha idade? Não te parece tarde demais?”. Mas era uma mulher boa, equilibrada, disponível, e respondi: “Maria Teresa, se você quiser, não é tarde… Se você quiser, é possível…”. Ela confiou e veio morar no Arsenal da Paz, tornando-se a mãe de todos nós. Era concreta, prática, e quando necessário também firme. Nunca buscava aparecer, mas era atenta e cuidadosa com cada pessoa que encontrava. Em toda Fraternidade deveria haver uma Maria Teresa!

   Nas suas escolhas, era uma mulher livre e, quando decidimos recomeçar na Jordânia, depois de seis meses de reflexão, Maria Teresa se ofereceu para acompanhar a Fraternidade. Me disse: “Se não me fizer estudar árabe, vou com prazer para ser mãe das meninas”. Alguns meses antes de partir, escreveu-me um bilhete: “Se eu olhasse para as minhas forças, minhas capacidades, minha ignorância, o ‘não’ seria lógico, mas se Deus quer e você quer, estou pronta para partir imediatamente”. Partiu com Cristiana, Claudia e Rosanna no dia 21 de março. No dia 23 de março, às 7 da manhã, enquanto se preparava para a missa, uma forte hemorragia cerebral a levou ao Céu. Estava pronta também para partir para o Céu e continuar sendo nossa mãe de lá.

   Maria Teresa é o grão de trigo que caiu na terra: “se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Desde o primeiro momento sentimos que, com a sua morte, o Senhor abençoaria a presença da nossa Fraternidade na Jordânia, como prometido a Abraão: “Te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma benção.” (Gn 12,2). Apesar do trauma daquela morte repentina, decidimos permanecer na Jordânia e, poucas semanas depois, começou a aventura do Arsenal do Encontro.

   São vinte anos do nascimento para o Céu de Maria Teresa, vinte anos de presença na Terra Santa da Jordânia ao lado das crianças e jovens com deficiência, de suas famílias, dos jovens e do povo de Madaba, com quem construímos relações fraternas. Sinto saudade daquela terra que sempre senti como casa, saudade das crianças que de manhã descem dos ônibus felizes e, ao vê-las chegar, toda tristeza desaparece. Sinto saudade de Chiara, Cristiana, Chiara Chiara, que estão lá como testemunhas do “sim que dá vida”.

   A Jordânia é uma terra árida, com cores do deserto, mas nesta estação, nos campos ao redor do Arsenal do Encontro, o trigo brota e tudo fica verde. Também a nossa vida lá foi árida, dura, cheia de dificuldades, mas a esperança nunca faltou e, todas as vezes, recomeçamos. Graças àquele grão de trigo que caiu na terra, a vida voltou a brotar, verde, sob o céu azul da Terra Santa. “Um sim chama outros sim” e, diante de cada dificuldade, outros sim surgiram, firmes, fiéis, de Deus. Só posso dizer obrigado a cada um que passou, a cada um que permaneceu o quanto pôde, a cada um que vive lá e a quem, no coração, está amadurecendo o desejo de ir!

   Os vinte anos da nossa presença em Madaba são novamente marcados pela guerra, que recomeçou há algumas semanas. Uma guerra que está desestabilizando todo o Oriente Médio. A nossa Fraternidade continua presente com amor ao lado das pessoas, para dar esperança a um povo que já não aguenta mais. Enquanto isso, as sirenes tocam de dia e de noite para nos lembrar que a paz é frágil.

   Queridos amigos, não deixemos faltar ao Arsenal do Encontro e à terra do Oriente Médio a nossa oração pela paz. Não deixemos faltar a nossa amizade fraterna, mesmo à distância. Não sabemos quais cenários se abrirão nas terras devastadas pela guerra, mas tenho certeza de que o Senhor e a Mãe das Três Mãos não nos farão faltar a sua proteção. E tenho certeza de que Maria Teresa, no Céu, reza sem cessar.

Com a minha Maria, com Maria Teresa, com dom Luciano e com toda a Fraternidade no Céu, nós vos abençoamos e vocês nos abençoam.

Ernesto e Maria

Turim, 15 de Março de 2026


*Maria Cerrato, esposa de Ernesto e cofundadora do SERMIG, que faleceu em 4 de maio de 2019.

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