
Carta à Fraternidade e aos amigos
Novembro de 2025
Queridos amigos,
neste retiro de Advento, a página da nossa Regra que nos acompanha é: “A bondade desarma”:
Aprendemos a escolher a bondade,
que desarma e leva a Deus.
A bondade é a única chave para encontrar
e dialogar com o homem.
Não são as reivindicações
que fazem os homens se encontrarem,
mas é a bondade
que nos transforma em pessoas que buscam a justiça
e em pessoas solidárias.
Os bons nunca são estrangeiros,
em parte alguma do mundo,
não são estrangeiros para nada nem para ninguém.
Só os bons podem indicar
um caminho bom, soluções boas,
economia boa, política boa,
poder bom a serviço do bem,
fronteiras boas, regras boas.
Podem ser o sal,
podem transfigurar o mundo
porque sabem pedir perdão a Deus
pelo mal praticado e sabem perdoar
porque Deus os perdoa.
Os bons podem o impossível,
podem desejar que finalmente
paz e justiça habitem juntas,
cimentadas pelo perdão.
É vital que os bons
se reconheçam e se encontrem.
Os bons podem dizer a verdade na caridade,
descobrir aquilo que une,
apreciar o bom dos outros
e reconhecer que as divisões de hoje
vêm de erros, falta de caridade,
incompreensões, interesses e medos de ontem.
Dão testemunho de Jesus Cristo Filho de Deus,
riqueza de Deus Pai de todos.
Queridos amigos,
a bondade é a única chave para encontrar e dialogar com o homem. Enquanto pensava nesta frase que o Senhor nos inspirou para a Regra, lembrei-me de um momento particular da minha vida. Muitos anos atrás, eu tinha dúvida se deveria aprender uma língua estrangeira para dialogar melhor com as pessoas que encontrava. Pedi conselho ao meu guia espiritual e ele me disse que, para mim, não era necessário: “O senhor não precisa; fala com o coração aberto e as pessoas o entendem.”
Assim compreendi que existe uma forma de comunicar que vai além das palavras; é uma passagem de coração a coração, que faz bem a quem dá e a quem recebe. Se você se confia ao Espírito Santo, o bem que é dom Dele em nós passa de um para outro, facilita o encontro e permite o diálogo.
O coração da nossa vida, no fundo, é exatamente isso: comunicar bondade. Os bons podem ser o sal. Mas não é um sentimento natural, não é algo reservado a poucos com bom caráter; é dom do Espírito, e é Ele quem transforma o nosso “homem velho”, nos dá uma humanidade nova e nos torna capazes de bondade.
Queridos amigos, hoje gostaria que todos juntos decidíssemos, no coração, escolher a bondade que desarma e conduz a Deus — antes de tudo na vida da Fraternidade, entre nós, na vida cotidiana dos nossos Arsenais, das nossas casas, no trabalho que fazemos juntos. Temos a responsabilidade de oferecer o melhor entre nós para sermos testemunhas do Evangelho:
“Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e seu amor em nós é plenamente realizado” (1 Jo 4,12). Gostaria que isso se tornasse nosso programa de vida.
Nos conhecemos bem: os temperamentos muitas vezes nos afastam uns dos outros; nos defendemos dos defeitos alheios. Às vezes, sem querer, fazemos mal uns aos outros, por um bem que nos parece maior. O Senhor sabe disso e nos dá a chave: Ele nos pede que nos estimemos e nos amemos reciprocamente, porque Ele mesmo quer vir em nosso auxílio, quer nos ajudar a superar nossas dificuldades e, se pedirmos com sinceridade, Ele o faz por nós. Ele não busca perfeição, mas nos pede sinceridade, confiança Nele, abandono. Ele precisa disso!
Percorramos esta página da Regra pensando em nós, numa paz que se constrói a partir de nós: Os bons sabem perdoar porque Deus os perdoa… Podem o impossível… Podem dizer a verdade na caridade, descobrir aquilo que une, apreciar o bom nos outros… Reconhecer que as divisões de hoje vêm de erros, falta de caridade, incompreensões, interesses e medos de ontem.
A bondade que desarma é feita de escolhas que se preparam com infinitos pequenos gestos concretos: um “obrigado” por uma delicadeza recebida, um “desculpa” por uma grosseria involuntária, um pouco de tempo para ouvir alguém, a paciência de perdoar, a escolha do silêncio em vez de palavras fora de lugar… Não nos poupemos e busquemos estar atentos a quem está perto, ajudemo-nos a ir além dos nossos pontos de vista, porque não são as reivindicações que resolvem os problemas! Desarmemo-nos e ajudemo-nos a desarmar.
Jesus, Tu nos ensinaste a chamar Deus de “Pai nosso”,
mas sozinhos não conseguimos nos tratar como irmãos.
Tu nos reuniste em teu nome,
mas sozinhos não conseguimos nos amar entre nós.
Tu nos ensinaste a bondade,
mas sozinhos não conseguimos escolhê-la.
Tu vieste trazer a paz,
mas sozinhos temos dificuldade de nos desarmar para vivê-la.
Tu nos dás uma nova humanidade,
mas o egoísmo e a falta de cuidado mútuo às vezes prevalecem
e o homem velho não dá lugar ao novo.
Hoje e todos os dias te confiamos nossos esforços, fragilidades e quedas.
Ajuda-nos a ver a nós mesmos e aos outros como Tu nos vês.
Pedimos o dom do teu Santo Espírito
para escolher o caminho da bondade,
para aprender a dizer a verdade na caridade,
para reconhecer o bom nos outros,
para nos perdoarmos e redescobrirmos aquilo que nos une.
Queridos amigos, rezemos todos os dias com estas palavras e peçamos ao Espírito Santo o dom da fraternidade. Feliz Advento, feliz Natal.
Abençoo vocês junto com minha Maria*, e vocês nos abençoem também.
Ernesto e Maria
Turim, 30 de novembro de 2025
*Maria Cerrato, esposa de Ernesto e cofundadora do SERMIG, que faleceu em 4 de maio de 2019.




