
Carta à Fraternidade e aos amigos
Outubro de 2025
Caros amigos,
retomamos nossos encontros mensais com a Regra do Sim; a cada mês leremos uma página para que possamos aprofundar juntos. A página de hoje é “Atentos aos sinais dos tempos”.
Me vem à mente um episódio particular que fez nascer esta página da Regra. Exatamente vinte e cinco anos atrás. Nos primeiros dias de outubro de 2000, o Piemonte foi atingido por uma enchente; muitos rios transbordaram, inclusive o Dora inundou nosso bairro. Alguns dias depois, quando a água abaixou, deixou as ruas, as casas, os porões cobertos de lama.
Também o Arsenal estava inundado, mas quando começamos a ver as pessoas do nosso bairro desanimadas por terem perdido tudo, me lembro de ter dito aos jovens que se preparavam para limpar os pátios do Arsenal: “Vamos primeiro ajudar as pessoas das lojinhas, devem estar desesperadas por terem perdido tudo e nenhuma delas tem forças ou materiais o suficiente. Primeiro os outros, depois nós”.
Passamos alguns meses limpando as casas ao longo do rio Dora. As pessoas nos procuravam pedindo ajuda, e centenas e centenas de jovens de toda a Itália vieram para prestar esse serviço, que deu esperança à tantas pessoas.
Atentos aos sinais dos tempos
A profecia com que o Senhor
nos presenteou
dá frutos hoje, amanhã, sempre
se formos fiéis, pobres, humildes, disponíveis,
se formos mulheres e homens de oração.
Seremos uma profecia
se nos deixarmos interpelar
pelos sinais dos tempos,
se estivermos atentos às exigências
de quem se aproxima,
se procurarmos colocar o outro
em primeiro lugar.
Mantemos sempre aberta
a porta dos nossos Arsenais
para comunicar esperança a quem está de passagem,
acolhê-lo, escutá-lo e dele cuidar.
Experimentamos sempre,
como se fosse a primeira vez,
a comoção de nos sentir impelidos
a socorrer os outros
antes de pensar em nós mesmos.
Primeiro os outros e depois nós
é a chave para comunicar
não com palavras, mas com os fatos,
o amor em que cada um de nós está envolvido
e abrir os corações à esperança.
Caríssimos amigos,
todos os dias somos atingidos por notícias terríveis que nos enchem de tristeza. A esperança, que se acende graças a algum frágil broto de paz, logo é apagada pelas notícias terríveis que continuam a nos atingir. Mortos, mortos, mortos — assassinados como sempre ou pelo poder ou pela má-fé e pelo engano. Nós, os mais adultos, estamos desnorteados e nos perguntamos: Mas para onde está indo este mundo? É o fim de tudo? Os mais jovens se fecham em si mesmos, refugiam-se nas redes sociais, expressam seu mal-estar na indiferença ou na violência... Também esses são sinais do nosso tempo. Nós os vemos, os reconhecemos — mas o que eles nos dizem? Para onde nos levam?
Se os enfrentarmos apenas com o raciocínio humano, confirmamos que estamos na mais densa escuridão. Mas Jesus nos ensinou a observar os sinais do tempo em que vivemos, a nos deixar interpelar e a interpretá-los: “No fim da tarde, dizeis: ‘Vai fazer tempo bom pois o céu está cor de fogo’, e de madrugada: ‘Hoje teremos tempestade, pois o céu está vermelho escuro’. Sabeis, pois, distinguir muito bem os aspectos do céu; mas não reconheceis os sinais dos tempos!” (Mt 16, 2–3).
A cada dia na escuridão se reacende a luz. É justamente a escuridão da noite que antecipa a luz da aurora. E quando o céu parece só escuridão, se reacende a esperança do novo que avança. A esperança é a chave deste tempo, é o dom que o Senhor nos faz para nos ajudar a ler o hoje, para nos ajudar a sustentar quem está próximo. Perguntemo-nos com frequência se o que fazemos em nossos dias traz esperança; questionemo-nos sobre como nos colocamos diante das pessoas e das situações que vivemos. Seja tanto pessoalmente como em comunidade, somos chamados a ser testemunhas da esperança que o Senhor nos oferece!
O valor máximo da esperança, pois o encontramos quando estamos com aqueles que aos olhos do mundo são os perdedores: os mais pobres, os mais frágeis, os que mais sofrem e os mais solitários. Quando estamos próximos de alguém assim, compreendemos a simplicidade, o essencial, aprendemos que se pode viver com pouco, que se pode ter nada, e mesmo assim não deixar de lutar, sorrir, agradecer, viver. Esses pequenos e pobres valem pouco ou nada para o mundo, mas com as suas vidas são mestres de esperança, sustentam a nossa fé. Conviver com eles, acolhê-los em nossas casas é um privilégio. O Senhor permite que estejam com nós para que possamos continuar a sentir vivo o seu ensinamento. Olhando para eles, tanto hoje quanto há vinte e cinco anos, repetimos: “primeiro os outros, depois nós.”
Caros amigos, continuemos a caminhar com a esperança no coração, fiéis a esse dom que o Senhor nos confiou para o nosso tempo.
Abençoemo-nos reciprocamente: com Maria*, eu abençoo vocês, e vocês nos abençoem.
Ernesto e Maria
Turim, 19 de outubro de 2025
*Maria Cerrato, esposa de Ernesto e cofundadora do SERMIG, que faleceu em 4 de maio de 2019.




